terça-feira, 20 de outubro de 2009

Vazio...

O caminhar do tempo não me deixa pensar em quantas oportunidades deixei passar em toda minha vida. Os dias passam lentamente, minha mente tenta achar um caminho para sair desta paralisia na qual vivo, mas minhas ilusões fracas enforcam absurdamente minha vontade de sair deste estado estático-permanente no qual sobrevivo.

Todos os dias são iguais. A rotina é um buraco no qual me situo e não vejo nada que me ajude a escapar. Nenhuma escada, uma corda ou sequer uma mão amiga.

Acordar, olhar o mesmo relógio, a mesma casa na qual vivo e lentamente, praticamente rastejando-me, me encontro obrigado a seguir uma rotina inútil sem desenvolvimento e ir em direção ao meu trabalho.

Nessas horas, por alguns momentos, até me sinto privilegiado. O local onde ganho o pão de cada dia se encontra não mais do que 10 passos de minha morada. Mas o privilégio se esvai quando minhas forças não me conduzem além ao ato de lavar o rosto, escovar meus dentes e trocar a roupa. Consumo-me nesta destruição pela falta de atitude e auto-estima na qual me retrato.

Um rapaz antes criança cheia de sonhos, hoje se encontra com mais de trinta anos, convivendo entre o pequeno espaço que possuo para o ato de sobreviver e o local sem perspectiva alguma onde passo dia após dia, mês após mês e ano após ano, onde varro a poeira na qual se tornou minha sobrevivência.

Em outra parte do tempo, me encontro sentado em uma cadeira completamente desconfortável, no aguardo de clientes que hora entram e saem e me percebo invisível, e outros que, mesmo ao realizarem o ato de consumo, deixam passar despercebida a agonia que me consome vorazmente.

Mesmo a grande massa de pessoas que passam pela rua, através de seus olhares, solta pensamentos de piedade e também de orgulho por não estarem em meu lugar. Estes atos mortificam, retraem e complementam este vazio.

Uma vez me lembro do olhar de um garoto. Mas este olhar foi diferente dentre todos os outros. Ao adentrar com sua visão dentro desta loja, fez-se por alguns momentos me sentir que, embora todos possuímos caminhos diferentes em nossas vidas, somos iguais, seres humanos detentores de sentimentos, sonhos e ideais, colocando para escanteio a posição social na qual muitos se comparam para se sentirem privilegiados.

Este olhar, naquele dia, tornou-me forte por alguns instantes e trouxe, naqueles mesmos momentos, o orgulho de ser quem sou pelo simples fato de esquecer qualquer diferença que a sociedade nos impõe e lembrar que, sim, somos iguais.

E toda vez que recordo este olhar, me esqueço do vazio, do buraco fétido no qual vegeto e levanto a cabeça sem vergonha alguma de ser quem sou. E visualizo quando minha mãe dizia que rezar sempre foi o melhor remédio para qualquer agonia.




-------------------------------------------------------------------------------

Ave Maria

Ave Maria
Nos seus andores
Rogai por nós
Os pecadores
Abençoai estas terras morenas,
Seus rios, seus campos
E as noites serenas
Abençoai as cascatas
E as borboletas que enfeitam as matas

Ave Maria

Cremos em vós
Virgem Maria rogai por nós
Ouve as preces murmúrios de luz
Que aos céus ascendem
E o vento conduz
Conduz a vós
Virgem Maria
Rogai por nós

Maria Bethânia

Nenhum comentário: