Todos os dias são iguais. A rotina é um buraco no qual me situo e não vejo nada que me ajude a escapar. Nenhuma escada, uma corda ou sequer uma mão amiga.
Acordar, olhar o mesmo relógio, a mesma casa na qual vivo e lentamente, praticamente rastejando-me, me encontro obrigado a seguir uma rotina inútil sem desenvolvimento e ir em direção ao meu trabalho.
Nessas horas, por alguns momentos, até me sinto privilegiado. O local onde ganho o pão de cada dia se encontra não mais do que 10 passos de minha morada. Mas o privilégio se esvai quando minhas forças não me conduzem além ao ato de lavar o rosto, escovar meus dentes e trocar a roupa. Consumo-me nesta destruição pela falta de atitude e auto-estima na qual me retrato.
Um rapaz antes criança cheia de sonhos, hoje se encontra com mais de trinta anos, convivendo entre o pequeno espaço que possuo para o ato de sobreviver e o local sem perspectiva alguma onde passo dia após dia, mês após mês e ano após ano, onde varro a poeira na qual se tornou minha sobrevivência.
Em outra parte do tempo, me encontro sentado em uma cadeira completamente desconfortável, no aguardo de clientes que hora entram e saem e me percebo invisível, e outros que, mesmo ao realizarem o ato de consumo, deixam passar despercebida a agonia que me consome vorazmente.
Mesmo a grande massa de pessoas que passam pela rua, através de seus olhares, solta pensamentos de piedade e também de orgulho por não estarem em meu lugar. Estes atos mortificam, retraem e complementam este vazio.
Uma vez me lembro do olhar de um garoto. Mas este olhar foi diferente dentre todos os outros. Ao adentrar com sua visão dentro desta loja, fez-se por alguns momentos me sentir que, embora todos possuímos caminhos diferentes em nossas vidas, somos iguais, seres humanos detentores de sentimentos, sonhos e ideais, colocando para escanteio a posição social na qual muitos se comparam para se sentirem privilegiados.
Este olhar, naquele dia, tornou-me forte por alguns instantes e trouxe, naqueles mesmos momentos, o orgulho de ser quem sou pelo simples fato de esquecer qualquer diferença que a sociedade nos impõe e lembrar que, sim, somos iguais.
E toda vez que recordo este olhar, me esqueço do vazio, do buraco fétido no qual vegeto e levanto a cabeça sem vergonha alguma de ser quem sou. E visualizo quando minha mãe dizia que rezar sempre foi o melhor remédio para qualquer agonia.

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Ave Maria
Ave Maria
Nos seus andores
Rogai por nós
Os pecadores
Abençoai estas terras morenas,
Seus rios, seus campos
E as noites serenas
Abençoai as cascatas
E as borboletas que enfeitam as matas
Ave Maria
Cremos em vós
Virgem Maria rogai por nós
Ouve as preces murmúrios de luz
Que aos céus ascendem
E o vento conduz
Conduz a vós
Virgem Maria
Rogai por nós
Maria Bethânia
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