Há tempos nada mudou. Os lençóis, as roupas antigas, o travesseiro e o lado vazio ao qual repouso todas as noites. O tempo passa mais rápido com a idade e o olhar no espelho já não é mais o mesmo. O reflexo transforma-se dia após dia e as forças para caminhar junto ao andar do relógio às vezes favorecem, mas às vezes não.
Minha rotina, embora vazia, possui uma dona. Senhora à qual idade não revelo, sente-se orgulhosa de seu passado simples e de conquistas comuns diante de outros olhares. Infância, adolescência, casamento e filhos...
Filhos estes que tomaram seu curso, esposo querido que me presenteou com seu companheirismo até seu último dia, deixando o restante, embora pequeno neste momento, glorioso em minhas memórias.
Mas o caminhar de meu dia entre o café feito por esta senhora e seus pensamentos vagos encontra-se em paz esperando a luz do Sol para agraciar e aquecer a pele já não mais bela como outrora, porém testemunha de uma longa jornada.
Ao Sol entrego meus pensamentos e desejos em troca desta luz através de minha janela que hoje, embora não aqueça como nos outros dias, a recebo como presente sincero ao iluminar meus cabelos brancos e meus olhos verdes que tantos fatos presenciaram e, pela sua cor, tantas vezes foram apreciados.
Em companhia deste astro, meus pensamentos caminham ao observar os movimentos deste dia e, por alguns instantes, saio desta rotina ao ser testemunhada por um jovem garoto, do outro lado da rua, encarar-me de uma forma diferente.
Aquele garoto, por segundos presenciou um pedaço de minha rotina e se fez diferente. Por estes instantes, pelos olhares trocados, me senti desnuda como se ao caminhar de seus passos, roubou e apreciou o meu passado contido abaixo de meus cabelos.
Agora, a luz já não aquece pela presença de gélidos ventos que forçam o fechar desta janela para dar continuidade ao meu dia. Senhor de seus andares contínuos e constantes, entre cômodos pouco ocupados, me rendo ao passar das horas.
Horas estas que possuem fim em um lado de minha cama a qual possui seu outro lado acariciado pelas minhas mãos e confortado pelos meus pensamentos como outrora. Solidão pacífica que, neste dia, sentiu-se brilhante pela luz do Sol e pelo andar de um jovem... Hoje meus sonhos serão diferentes...
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À Noite Sonhei Contigo
À noite sonhei contigo,
E não tava dormindo,
Justo ao contrário,
Estava bem desperto...
Sonhei que não fazia
O menor esforço,
Para que te entregasses.
Em ti, já estava imerso...
Que lindo que é sonhar
Sonhar não custa nada
Sonhar e nada mais
De olhos bem abertos
Que lindo que é sonhar
E não te custa nada mais que tempo...
Sofrer com tanta angústia
Por coisas tão pequenas
Gastar essa energia
Assim não vale à pena
Quem dera me livrar
Pra sempre de mim mesmo,
E só me reencontrar
Lá no teu doce abismo...
Paula Toller
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