Talvez seja um desejo de muitas ou um desejo próprio de impor algo que necessariamente não precise ser imposto. É árduo, é corrido, é uma maratona sem fim ao qual estou presa voluntariamente sem saber quando e como será o final desta sentença.
As amarras são fortes e, por mais insensato que possa parecer para alguns, é recompensadora pelo esforço, pelas escolhas feitas, pelas demandas não atendidas e pela própria redenção.
Olhar ao redor de tudo o que possa preencher uma mulher que se veste de uma forma diferente para continuar seu caminho pelo topo e deixando de lado alguns prazeres banais. Sim, os considero banais pela falta de retorno concreto, pelo material não auferido e pela falta de reconhecimento social.
Antes uma garota com sonhos e ideais infiltrados por osmose pela educação familiar em esperar pelo oposto, servir o mesmo e seguir-lo por seus caminhos como um par inicial para a construção de um novo grupo. Hoje uma mulher, solitária talvez, mas reconhecida como exemplo.
Resolvi tomar o lado daquele oposto e verifico o quão diferente a realidade se mostra incômoda, amedrontada e inferiorizada. Realidade esta enquadrada pelos que não se sentem confortáveis com minha presença (ou seriam minhas conquistas???), e encontro-me só frente ao adquirido.
Sim, falo de conquistas materiais, de um ótimo e confortável local para passar as poucas horas que o cárcere não-privado me libera, do brilho vindo dos artefatos que adornam e da leveza carimbada pela alta-costura da indústria automobilística que acomodam estes saltos altos que impõem respeito por onde ando em meu reino.
Dizer que não sinto falta ou que invejo o que minhas colegas possuem pelo caminho contrário tomado seria mentir perante esta face que, maquiada, verifica no espelho o peso em carregar esta escolha e as lágrimas que por teimosia não se rendem me acompanham nesta caminhada.
Filhos, marido, uma vida comum rodeada por familiares, simplicidade em todos os cantos são objetos de desejo que deixei para trás com a aposta de uma vida focada em uma carreira brilhante e desejada por muitos. E esta, mesma alcançada através de anos de luta, sente-se cansada ao tentar verificar como seria caso tivesse escolhido o outro extremo, ou até mesmo o meio-termo.
Mas estes pés, um dia descalços em seu primeiro passo, hoje se sustentam em um par de saltos altos com os quais olho por cima a diferença entre o destaque, o meio-termo e a indiferença. Mesmo querendo tentar definir a possibilidade que haver algum outro caminho para o sucesso, prendo-me neste. Sim, posso até chegar ao martírio em cegar meus próprios olhos para uma outra realidade.
Realidade esta onde meus saltos não teriam valor algum... Onde a solidão às vezes agoniza e tenta desafiar meu forte... Forte este anteriormente aberto para o amor e hoje com portas fechadas...

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1.800 Colinas
Subi mais de 1800 colinas
Não vi nem a sombra de quem
Eu desejo encontrar
Oh! Deus eu preciso encontrar meu amor
Prá matar a saudade que quer me matar
Eu que queria dar sossego ao meu coração
Mas fui infeliz no amor
Fui gostar de quem não gosta de ninguém
E hoje só me resta a dor
Paula Toller
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