sábado, 25 de julho de 2009

Por favor, assoprem...

Talvez por conta de tudo o que ocorreu, olho para os lados, para frente e para trás e, em certos momentos, faço um giro de 360º e percebo que nada me interessa. Não pelo fato de não querer, mas pela sensação estranha de não possuir energia.

Sentimento passageiro ou não, quero apenas passear novamente com meu pai quando criança, sentir o calor de suas mãos e a certeza da segurança de estar ao seu lado. Clamo pelo passado por instantes melancólicos e ajoelho no presente para que tire as cores que possam vir a transformar o tom acinzentado do momento.

Seria possível pré-fabricar momentos e projetá-los no futuro para não ser surpreendido pelo destino??? A letargia quer alcançar seu ápice, a música não quer aplausos e apenas um ouvinte e, talvez até a bandeira hasteada, pede o para o vento não soprar para que possa permanecer por momentos deformada.

O coração bate lentamente, sem pulsações de alegria ou tristeza. Sua lentidão é contínua e imutável para que continue neste estado de conforto desconfortável necessário. A mente desconecta e percebe que é momento de uma pequena separação.

Sentir o tormento do desespero de enxergar um presente-futuro solteiro e, que no mesmo sentido, a solidão se faz presente sorrindo espantando o terror da possibilidade de qualquer ferida já cicatrizada ser aberta.

Tendo o cigarro como companheiro e sua dilaceração através de tragadas mantendo a cor destes momentos felizes infelizes porém não estagnados visto que é transição, algo passageiro que ajuda iluminar com as chamas de uma vela acesa persistindo em querer trazer luz.

Mas aqui peço que apaguem, assoprem esta chama desnecessária que traz cores querendo me ajudar neste caminho da solidão auto-imposta de quem quer simplesmente caminhar sozinho na atual realidade preenchendo-se de companhias do passado como aquelas voltas no quarteirão ao redor da minha casa pelas mãos seguras de quem um dia protegeu e ensinou o bastante para meu andar solitário sem sua presença.

Sim, um dia a vela será acesa novamente, a luz chegará novamente e a companhia segura de outrém também. Mas agora não, quero inverno para crescer e preparar-me para o verão, visto que o outono já passou e ainda tenho a primavera por vir...




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Casa no Campo

Eu quero uma casa no campo

Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
Meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
E nada mais

Elis Regina

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