quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Medicina Aeroespacial, Primeiros Socorros e Higiene e Saúde Parte I

Medicina Aeroespacial

Ar Atmosférico (mistura de gases) => 78% N2, 21% O2, 1% outros gases e 0,03% CO2.

Pressão Atmosférica (PAT/PATM) => 760 mmhg ao nível do mar

Umidade Relativa do Ar => Mínimo entre 30 e 40% (segundo a OMS o ideal é entre 80 e 90%)

Obs: Quanto maior a altitude, a pressão atmosférica e a temperatura diminuem. A pressão atmosférica é a soma da pressão parcial de cada gás nela contida.

Pressurização: É a manutenção da pressão da cabine de uma aeronave em condição compatível com a altitude fisiológica do ser humano. Até a invenção das cabines pressurizadas em 1.943, os vôos não podiam ser feitos acima de 12.000 pés. Atualmente a cabine da aeronave deve estar pressurizada para manter uma altitude correspondente a, no máximo, 8.000 pés.

Despressurização: Voando a uma grande altitude a aeronave leva, no interior de sua cabine, uma amostra de menor altitude, e, portanto, de maior pressão que a do ambiente externo no qual a aeronave encontra-se voando. A despressurização é o maior risco que poderão enfrentar os ocupantes de uma aeronave nas grandes altitudes. E, quanto menor o tempo de descompressão, maiores serão os danos físicos sofridos pelos passageiros e tripulantes.

A despressurização pode ser explosiva (perda de pressão instantânea, de ocorrência muito rara e decorrente de acidentes), lenta (vazamentos mínimos na cabine e facilmente controlada) e rápida (leva cerca de 1 segundo para as pressões se igualarem e é a de ocorrência mais frequente).

Na despressurização rápida temos os seguintes efeitos: Objetos leves sobem para o teto e as pessoas ouvem um sopro no local por onde o ar escapa, resfriamento brusco da aeronave devido á acentuada queda de temperatura com a formação de intensa neblina de curta duração, momentânea sensação de ofuscamento e confusão mental, saída brusca do ar dos pulmões exalado violentamente pelo nariz e pela boca trazendo a sensação de um súbito aumento dos pulmões dentro do tórax, dificuldade de articular palavras e de ouvir sons devido à rarefação do ar, hipóxia severa se o equipamento de oxigênio não for usado imediatamente, aeroembolismo severo, aerobaropatias por descompressão dos gases cavitários.

Nesta situação de despressurização, cabem as seguintes medidas: O Comandante deve descer a aeronave à razão de 4.000 e 6.000 pés por minuto até atingir uma altitude de segurança e emprego de oxigênio por meio de máscaras em benefício de todos os passageiros e tripulantes.

Obs: A descompressão explosiva a bordo de um avião supersônico voando a 62.700 pés, acarretará o fenômeno de "ebulismo", isto é, todos os líquidos orgânicos entram em ebulição, de modo que o corpo aumenta de volume e explode.

Efeitos das Baixas Pressões de Oxigênio sobre o Organismo:

=> 10.000 a 12.000 pés: A pessoa começa a bocejar, ter inquietação, cefaléia e vertigens leves.

=> 12.000 a 14.000 pés: Lassidão (estado de relaxamento total) e, em menos de 15 minutos, altera-se a capacidade de avaliar corretamente a situação em que se encontra.

=> 14.000 a 16.000 pés: Intensifica-se a lassidão podendo surgir euforia, depressão, inquietação, irritabilidade, belicosidade ou hilariedade. Começa a alteração da visão (hemianopsia - enxergar apenas com um olho), alteração da audição e leves desmaios. A capacidade de julgamento torna-se limitada e surgem tremores nas extremidades, incoordenação motora e fadiga.

=> 16.000 a 20.000 pés: Acentuam-se os problemas anteriores e surgem alterações da olfação e gustação.

=> 20.000 pés e acima: Convulsão e, dependendo do tempo de exposição, morte.

Fadiga: Diminui a tolerância individual a hipóxia. Uma pessoa em boas condições físicas tem uma tolerância maior à altura do que outra do tipo sedentária e durante o período de tensão, o consumo de oxigênio das pessoas não-atléticas é também maior.

Tempo Útil de Lucidez (TUL) ou Tempo Útil de Consciência (TUC): Definido como o tempo em que alguém pode fazer alguma coisa por si mesma, tal como ajustar corretamente a máscara de oxigênio e deve-se a um problema de hipóxia hipobárica. Em fumantes, existência de monóxido de carbono nos pulmões reduz significativamente o oxigênio disponível para os tecidos do corpo. O mesmo ocorre com o álcool, que mesmo consumido com antecedência de 18 horas, atua sobre as células e interfere na assimilação do oxigênio (durante o vôo, o efeito de cada drinque ingerido é duplicado ou triplicado).

Obs: 22.000 pés => TUL de 5 a 10 minutos; 25.000 pés => TUL de 3 a 5 minutos; 30.000 pés => TUL de 1 a 2 minutos; 35.000 pés => TUL de 30 a 60 segundos; 40.000 pés => TUL de 15 a 20 segundos; 45.000 pés => TUL de 8 a 15 segundos.

Hipóxia (diminuição de O2 nos tecidos do corpo)

Hipóxia Hipóxica / Anóxica: Deve-se a uma chegada de oxigênio às células orgânicas, em virtude da dificuldade que o gás tem em se difundir para o sangue nos alvéolos pulmonares. Quando o oxigênio não consegue absolutamente se difundir para o sangue e daí para as células, ocorre a Hipóxia Anóxia. Em grandes altitudes recebe o nome de Hipóxia Hipobárica. Tratamento em caso de traqueostomia somente em hospitais e oxigenioterapia em passageiros sentados ou semi sentados.

Hipóxia Anêmica ou Hipêmica: Ocorre devido à chegada de oxigênio em quantidades reduzidas em virtude de problemas no transporte do gás pelas hemácias (anemias, hemorragias, compostos pouco solúveis - monóxido de carbono). Tratamento através de oxigênio 100% por máscaras sob pressão.

Hipóxia Estagnante, Isquêmica ou Estática: Ocorre em consequência do retardo na chegada do oxigênio às células em virtude da diminuição do fluxo sanguíneo e é de origem cardíaca (deficiência de bombeamento). Tratamento com manobra reanimatória, combate à causa do distúrbio e não há a necessidade de oxigenioterapia.

Hipóxia Histotóxica: É devida a inabilidade das células teciduais para utilizar o oxigênio transportado pelas hemácias em virtude de tóxicos nas células (envenenamento por cianeto, arsênico, nicotina, cocaína, álcool e estricnina). O tratamento é feito com o antídoto específico e remoção para o hospital urgente.

Formas Combinadas: Ocorrem 2 ou mais fatores juntos (cardiopatia associada a pneumonia ou anemia, etc.). Neste caso, fazer o tratamento de cada uma.

Asma Brônquica (Dispnéia / Dispnéia Respiratória): Caracterizada por recorrentes episódios de obstrução das vias aéreas. O ataque asmático se inicia geralmente de modo súbito, com chiados, tosse, expectoração de muco transparente e viscoso e dispnéia, sobretudo respiratória. Como tratamento tem-se que passar muita calma ao passageiro, ligar o ponto de ventilação, manter sentado, procure o remédio do mesmo, oxigênio e água (após o término da crise).

Hiperventilação em Vôo (Medo ou Ansiedade em relação ao Vôo): Hiperpnéia (movimentos respiratórios acelerados e profundos e Taqpnéia (movimentos respiratórios acelerados e superficiais). A causa é a diminuição da concentração de CO2 no sangue. O passageiro pode sentir sufocação, sonolência, delírio, formigamento nas extremidades e frio. Como atendimento, fazer o passageiro inspirar e expirar controladamente dentro de um saco de papel sobre a boca e o nariz para a aceleração da formação de dióxido de carbono no corpo.

Obs: 1) Hipóxia Atmosférica ou Hipobárica é a queda de pressão parcial de oxigênio alveolar; 2) Hipóxia alveolar é a queda da pressão parcial de oxigênio no ar atmosférico; 3) Hipoxistia é a redução da quantidade de oxigênio nos tecidos orgânicos; 4) Hipoxicitia é a inadequação da nutrição celular por Hipoxistia.

Disbarismos

Aeroembolismo: Também chamado de Aerobaropatia Plasmática ou Doença Descompressiva, é a formação de bolhas de nitrogênio em vários departamentos do organismo, fato que ocorre em altitudes aproximadas de 30.000 pés, em cabine não-pressurizada. Com a queda da pressão a partir de 30.000 pés o corpo não consegue eliminar o gás dissolvido nos tecidos com a rapidez necessária através da respiração. Isso forma bolhas que se desprendem e pressionam as extremidades dos nervos, podendo bloquear o fluxo sanguíneo, impedindo o oxigênio de chegar a determinadas partes do corpo (o que pode causar danos nessas áreas). Tem como sintomas o desconforto, dores articulares (astralgias), dores musculares (mialgias), arqueamento (contorções da vítima em agonia) que inicia-se fraco até tornar-se lacinante, sensação de calor ou frio, formigamento, prurido (coceira) intenso, cefaléia, distúrbios visuais, tontura, dormência, paralisia, perda da coordenação motora, coma e morte.

O Aeroembolismo é uma ocorrência rara, só encontrada em emergências causadas pela ruptura de uma janela ou porta de cabine pressurizada.

Obs: O oxigênio por máscara serve para prevenir a Hipóxia, mas não dissolve as bolhas de nitrogênio do Aeroembolismo.

Aerodilatações (Aerobaropatias Cavitárias): Resultam das oscilações de pressão atmosférica exercida sobre os gases contidos nos órgãos cavitários do organismo humano que, quando dilatados, poderão provocar ruptura nos tecidos vizinhos se a pressão for muito elevada.

=> Aerootobaropatia: Em virtude da pressão diminuir durante a subida de uma aeronave, o ar contido no ouvido médio dilata-se, aumentando a pressão interna. Ocorre o abaulamento dos tímpanos para fora e repuxamento da cadeia de ossinhos. Durante vôo de cruzeiro, a pressão do ouvido médio deve estar equalizada com a pressão da cabine da aeronave. Por ocasião da descida da aeronave, como preparativo para o pouso, a membrana timpânica se abaula para dentro, as paredes da trompa de eustáquio colabam e uma dobra de mucosa, como se fosse uma válvula, fecha sua abertura na nasofaringe.

Tem como sintomas, dor de ouvido (otalgia), diminuição da acuidade (qualidade) auditiva (hipoacusia), zumbido, náusea, vômitos, tontura e ruptura do tímpano. A profilaxia (prevenção) seria não voar resfriado ou gripado, mascar chicletes, bocejar ou deglutir, descongestionamento nasal e manobra de vasalva. O tratamento se dá com descongestionamento nasal e manobra de vasalva.

=> Aerosinusobaropatia: Localizados nos ossos maxilares e frontal encontramos cavidades ventiladas conhecidas como "seios paranasais". Estas cavidades são revestidas internamente por uma mucosa chamada "mucosa dos seios". Em qualquer estado patológico que resulte em congestão das mucosas ou no entupimento dos orifícios de drenagem dos seios, surge imediatamente a dor devido à impossibilidade das pressões interna e externa se igualarem. Se o seio atingido for o frontal, a dor será sobre os olhos (idêntica a uma cefaléia frontal) e, se for o maxilar, a dor será abaixo dos olhos, muitas vezes simulando dor de dente. A Aerosinusobaropatia pode ser obstrutiva (desvio de septo, carne esponjosa, etc.) e não obstrutiva (presença de secreções rino ou nasofaringite, rinite, etc.).

Os sintomas ocorrem porque o ar se dilata dentro das cavidades e o tratamento em caso de obstrutiva é corrigida antes do vôo (cirurgia) e, em caso de não-obstrutiva, trata-se com analgésicos, antialérgicos, descongestionantes nasofaringeos, antigripais e manobra de vasalva. Como prevenção, não se deve voar gripado ou resfriado, durante processos alérgicos e corrigir estados inflamatórios e infecções durante o vôo.

=> Aerogastrobaropatia e Aeroenterobaropatia: Outras cavidades que contêm ar são as do tubo digestivo. Existe ar no estômago, formando uma bolha no fundo do órgão, proveniente da aerofagia, inalação de fumaça e fala e, também, resultante dos processos fermentativos do próprio estômago. Encontramos ar no intestino delgado e no intestino grosso, resultante dos processos fermentativos e putrefativos da ação da flora intestinal.

Tem como sintomas a aerocolia (cólicas), aerogastria (dor na área gástrica), opressão toráxica-meteorismo (maior acúmulo de gases), falta de ar, "gera-flatus" e gera-eructações ("arrotos"). Como prevenção, se deve evitar bebidas gasosas, evitar fadiga e tensão emocional e evitar alimentos que formem gases. Como tratamento, deve se mover na cabine e andar e luftal.

=> Aeroodontobaropatia: Dor de dente causada pela dilatação de uma bolha de ar existente junto a raiz, isto é, no alvéolo dentário. As altitudes onde ocorrem essas dores variam entre 10.000 e 15.000 pés, podendo tornar-se mais severas com o aumento da altitude. As causas são provavelmente cáries profundas, degeneração pulpar ou a presença de abscesso dento-alveolar. De modo geral, a prevenção é uma boa higienização e retornos frequentes ao dentista para manutenção.

Ruídos e Vibrações: Na cabine de uma aeronave em vôo, as vibrações são complexas e provenientes do deslocamento da aeronave na atmosfera (ruído aerodinâmico) e do trabalho dos motores. São classificadas em acústicas, infra-sônicas e ultra-sônicas. Ruídos são sons (movimentos vibratórios) que se propagam pelos sólidos, líquidos e pelo ar e são captados pelo aparelho auditivo. Suas características sensoriais são a intensidade, a altura ou tom e o timbre.

O ouvido humano é capaz de ouvir sons que estão numa faixa de percepção entre 18 e 20.000 hz. Abaixo estão os infra-sons e, acima, os ultra-sons. A faixa mais utilizada pelo homem está entre 500 e 6.000 hz. O limiar de conforto auditivo está em 85 db. A intensidade dos sons em um domicílio sossegado alcança 40 db, em uma conversação 70 db, em uma cidade com grande tráfego 90 db, no interior de um quadrimotor pistão 110 db e na cabine dos jatos modernos já foram conseguidos níveis de 85 db.

Os ruídos e vibrações transmitem-se através da fuselagem da aeronave e do ar, penetram no organismo através dos nossos pés e dos assentos das poltronas e se propagam por todo o corpo. Exposições prolongadas e repetidas podem causar repercussões sobre a audição, sobre a acuidade visual e sobre o sistema neuromuscular e circulatório. Os ruídos são, ainda, fatores estressantes ao vôo, levando, também, o organismo à fadiga aérea. Causam as seguintes perturbações orgânicas e psíquicas: Irritabilidade, predisposição à fadiga prematura e redução do rendimento de trabalho (exposição contínua a ruídos com intensidade superior a 40 db), perturbações auditivas (exposições contínuas a ruídos com intensidade superior a 90 db), trauma acústico grave (exposição contínua a ruídos com intensidade superior a 120 db), dor de cabeça, náuseas, nervosismo e transtornos menstruais (a atuação de sons supersônicos inaudíveis).

Baixa Umidade do Ar: A concentração de vapor d'água ideal no ar ambiente está numa faixa entre 30 e 40%. Apesar da temperatura da aeronave ser facilmente regulada para um nível agradável, não acontece o mesmo com a umidade relativa do ar devido à grande diferença entre a temperatura dentro e fora do avião. Com isso, os aeronautas estão expostos, durante o vôo, a um ar bastante seco, principalmente em longas distâncias. Dentro da cabine pressurizada de um avião o ar é seco e refrigerado. A principal razão pela qual as aeronaves voam com o ar seco no seu interior é a necessidade de evitar a condensação d'água.

A baixa umidade do ar ambiente determina, no decurso de algumas horas, perda de água pela respiração excessiva, causando desidratação e ressecamento das mucosas do nariz, boca e conjuntiva bulbar (globo ocular). Nos indivíduos com mucosas sensíveis e alérgicos pode causar conjuntivite, úlceras nas córneas, sangramento nasal, eliminação da urina concentrada com aglutinação de cristais (aumentando a probabilidade de cálculos renais).

Para minimizar estes problemas deve-se ingerir 2 litros e meio de água por dia (durante o vôo beber em maior quantidade), usar creme hidratante, usar colírio do tipo lágrima com frequência durante o vôo, usar óculos em vez de lentes, respirar por alguns minutos através de lenços umedecidos com água e pingar nas narinas durante o vôo substâncias que sejam capazes de umedecer a mucosa nasal.

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